UM RABISCO E UMA FRASE SOBRE O REI

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Mouse+Illustrator

O bom rei depende muito da capacidade do seu estômago e (principalmente) da qualidade dos seus intestinos.

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CAPSULA

Só há nós, o presente e os fantasmas.
Quanto ao resto,
é cenário.

PAVOR

Eu não tenho medo de nada nesse mundo, absolutamente. O que eu tenho mesmo é pavor. Mas, faz tanto tempo que estou no pedaço, que aprendi a disfarçar e vou seguindo toscamente, na trombada, no tropeço, na cutucada, no reflexo, no desvio da flecha, na cambalhota, no equilíbrio, no salto mortal, na flexibilidade, no golpe de caratê, as vezes até no sorriso, no acordo, no par ou ímpar, no aperto de mão ou no choque elétrico se não tiver outro jeito, mas sempre tentando, apavorado.

BINÓCULO ATÔMICO ESPACIAL

Aponto o meu binóculo atômico espacial para o chão e consigo enxergar, com clareza, todas as bactérias da poeira da lona do tempo que fui deixando escapar, graças ao meu inevitável estrabismo e a minha surpreendente miopia. Nada me é tão familiar. Uma espécie de panorâmica sobre o habitat  natural do canastrão, esse ex-coitado que lamenta aqui, em caixa baixa, acostumado a fingir-se de vivo o tempo inteiro por conta do mais puro, autêntico e cristalino, medo. Com ele, o binóculo, também consigo captar, com precisão cirúrgica, os muitos favores que nunca foram pedidos, todas as ajudas que nunca foram oferecidas, os milhares de sonhos fossilizados e as dezenas de amores derretidos pelo tempo. Ouço também muitas gargalhadas, mas isso não tem nada a ver com o binóculo, são apenas ruídos, já estou acostumado.

RÉGUA

Sou uma inocente vítima preguiçosa das muitas inocentes vítimas preguiçosas do acaso. Questão de bom senso e da total falta de provas que autorizem o uso de alguma outra palavra que contenha em seu significado qualquer tipo de conotação próxima do que se entenda por sagrado. Tenho poucas certezas na vida além da morte, do medo, dos desejos, das dúvidas e das dívidas, talvez como todo mundo. No mais, sigo sonhando sem controle, tentando e realizando o tanto que posso do jeito que consigo – no tempo que tenho – o que pode ser pouco, ou muito pouco, dependendo da régua.

#ChicoScarpini

BARATA

Pisado,

sem aviso,

quase sempre,

vou sendo pisado.

Quase sempre, vou sendo

pisado sem motivos. As vezes,

sendo pisado até sem ser percebido.

Pisado com vontade, pisado de verdade,

pisado na maldade ou apenas por uma simples,

frágil e sórdida vaidade. Logo eu, que piso tão pouco.

PEDRA BRUTA

A minha consciência é de vento, os meus sonhos de lua, meus arrependimentos de chumbo e a minha paciência de bolha de sabão. A minha saudade é de pedra, um diamante bruto, crescendo em algum lugar secreto, provavelmente em outra dimensão, totalmente protegida por neurônios treinados da mais alta confiança (sabe-se lá de qual demônio), que se alimentam de lugares, de objetos, de acasos, de invenções, de vento, de lua, de chumbo e gotículas.

DOWN

Eu queria falar de alegria, mas a sinceridade ganhou. A minha verdade anda triste, em passos lentos e curtos, parece que arrasta um cadáver em cada perna. Pode ser exagero, pode ser uma ilusão, um mau gosto, pode ser tudo, inclusive eterno. A percepção é quem manda e hoje ela anda no passo da minha verdade, no limite do humano.

UM CARA DE FÉ

Amigos do peito, desconhecidos curiosos, pessoas que tem coragem, malucos de plantão, covardes de toda espécie e paraquedas em geral. Eu tenho um recado sobre a vida, que vem diretamente das profundezas confusas da minha mente para vocês. Não se trata de nenhuma novidade, quero ser apenas mais um a discorrer sobre o assunto mais batido que conheço. Por puro capricho, indignação, desabafo e exercício da cara de pau. É o seguinte: na realidade, ninguém sabe porra nenhuma sobre coisa alguma relacionada ao que somos, de onde viemos e para onde vamos. A ciência conseguiu entender um ou dois, no máximo três, grãozinhos de areia sobre o assunto, por enquanto, mas a confusão não melhora.

Podem aparecer com soluções espirituais, físicas, metafísicas ou o que for necessário para justificar o ser humano, a vida, o sofrimento, as injustiças. O fato é que ninguém nunca prova nada.

A Terra pode ser uma nano partícula de algum organismo que neste exato momento pode estar com as mesmas dúvidas que nós temos, que também pode ser outra nano partícula… Podemos estar na dimensão ‘X’ que ao mesmo tempo comporta a dimensão ‘Y’ em outra vibração, ou velocidade que vai existindo independente da outra no mesmo espaço tempo onde acumula mundos infinitos. Podemos ser ecos de um pensamento, pensando existir de fato, enquanto a nossa verdadeira existência não se lembra que existimos pois somos os seus sonhos esquecidos. Podemos ser realmente a imagem e semelhança de um Deus criador aprendendo a merecer o caminho do paraíso, ou penando por pecados cometidos em outras existências que não lembramos por gratidão divina, ou ovelhas que foram salvas pelo sofrimento do filho do criador que precisa de um sacrifício, ou a colônia de algum planeta que se alimenta do nosso sofrimento, da nossa dúvida, ou o que a imaginação permitir, inclusive uma, ou várias possibilidades que vão sendo apontadas pela ciência. Um acidente, um acaso que foi evoluindo até o que somos, que vai se adaptando muito lentamente às condições que vão se estabelecendo. Não dá para saber exatamente. É tanta estória que vamos ouvindo, tantas crenças que vão tentando plantar e plantam em nossas cabeças, tantas evidências óbvias que vão sendo derrubadas com o tempo, que vamos nos perdendo. Somos perdidos.

É uma falação dos diabos (opa!), uma disputa infernal (opa!) pela ‘verdade’. Um desafio à razão, à emoção, aos nervos. Tenho dificuldade em confiar, ao mesmo tempo em que o meu maior desejo seria realmente confiar, mas o meu senso crítico não permite, graças a Deus (não resisti). Há injustiças por todos os lados, cometidas o tempo todo. Muitas vezes sem querer, por ignorância, por pura maldade, por motivos de força maior, por arrogância, por azar… É tanta gente passando fome, necessidade, sofrendo por amor, saudade, vontade, por falta de recursos, doenças e toda uma sorte de situações de dor, que fica difícil manter algum tipo de fé. A impressão que tenho é que alguns sofrem menos, outros mais e outros muito mais, e o motivo aparente nunca é justo. O que é justo? Parece que a coisa foi feita para ser assim. Isso me revolta. Pareço ingênuo? Quem não parece? Quem não é?

Ando revoltado a muito tempo. Escuto em todo canto que a revolta não resolve nada, muito pelo contrário, piora tudo. Vivo tentando não me revoltar, mas parece ser pior quando não me revolto, me sinto um covarde, um inútil, um falso que aceita calado o que não concorda. Tento ouvir as vozes que me pedem para puxar o freio, tento transformar essa revolta em algo útil, em um ‘não concordar’ didático, pausado, pensado, político, com jogo de cintura, cheio de dedos para não ofender quem importa (quem importa?). Talvez, continuando assim, aprendendo a ser bonzinho e bem comportado, ou esperto o suficiente para usar os códigos certos nos momentos corretos, os anjos, os santos, os espíritos, os orixás, os deuses, Jesus, Jeová, Alá ou até mesmo o próprio Criador, ou, quem sabe, um Marciano, possam dar uma luz.

Não quero dizer que não percebo os prazeres, as emoções maravilhosas e os presentes que a vida e a natureza nos permitem. Não quero dizer que não há paz, amor, alegria, felicidade. Essas coisas existem. O problema é a equação da paz, do amor, da alegria e da felicidade, com a dor e o tempo que ela pode durar. Sinceramente, isso me deixa muito puto. Eu não sei resolver essa maldita (opa!) conta. A maioria das pessoas que conheço não sabe. Algumas pensam que sabem, mas não sabem, apenas mentem para si e para os outros, entrando numa espécie de hipnose, conduzida por uma necessidade de crença que parece morar no DNA da maioria, e só serve para fundir e confundir, ainda mais, a cuca de indignados como eu.

Não há pra onde correr, as vezes penso que o suicídio seria uma boa colher para cavar esse túnel rumo a liberdade, mas minha coragem limita-se ao pensamento. Já escutei e sou influenciado por muitas estórias e tenho medo de encontrar um diabo(opa!) ainda maior do ‘outro lado’. Confesso que já pensei em algumas formas de cometê-lo. A que mais gostei foi uma onde não parto sozinho, mas em caravana, com todos os seres do planeta, de uma só vez. Um suicídio geral e coletivo com o objetivo de entupir o céu. Uma forma de protesto pela falta de manual de instrução aqui na Terra. Seria engraçada a cena, tão engraçada quanto impossível. Já pensou o trabalho para convencer todo mundo? Fora que poderíamos chegar lá e descobrir que tudo não passa de uma grande pegadinha, ou, um grande e absoluto, nada.

Não sou negativo, sou apenas mais um questionador, perdido, revoltado e curioso querendo escrever sobre um tema batido, que já leu, viu, assistiu e ouviu um monte de coisas em busca de algum entendimento e paz – do psicólogo ao centro de macumba, da brincadeira do copo a ressonância magnética, dos Florais de Bach ao Prozac – e nunca conseguiu nada. Um cara alegre, pero no mucho, que em boa parte do tempo não consegue deixar de sentir-se como um animal puxando uma carroça com carga desconhecida e muito pesada, movendo-se apenas pelo medo e pelo desejo incontrolável de abocanhar a cenoura gigante do esclarecimento. Palavra de alguém que tem fé, mesmo não conseguindo acreditar efetivamente em nada até agora, que vive confuso e só queria entender o universo, só isso.

#ChicoScarpini

FERIDA

Confundo as feridas,
minha autoria a maioria.

Nasci ferindo,
nem sabia como.

Nasci ferido,
só por ter nascido.

Ferindo, ferido,
o tempo todo.

Caçando palavras,
juntando pedaços.

Cutucando quem feria,
cutucado onde não podia.

Cançado palavras,
perdendo a conta.

Na barriga do mundo,
até a última ferida.

AZEDO

Acabou a festa, se é que era festa, aquilo, que não soube interpretar senão como festa ou como a vida acontecendo como festa. Não sei. Coisa de maluco. Coisa de quem não tem o que fazer. Na realidade, coisa de quem não sabe o que fazer e sempre fica triste, mais com o fim, do alegre com o começo, ou com a própria existência da festa. Coisa de quem não quer voltar para casa. Coisa de quem, de repente, vai ficando cheio e depois esvazia, como um fim de festa, com convidados e até penetras abandonando a bagunça para quem fica. Coisa de quem sempre fica, como parte da decoração ou como parte dos escombros do que vai deixando de ser a festa, largado no canto, junto com os móveis desarrumados, os copos quebrados, as garrafas vazias, o chão molhado, sujo e escorregadio, cheio de marcas de sapatos, bitucas de cigarros e o cheiro de azedo.