​DELÍRIO GEEK TUPINIQUIM

Eu queria ter os poderes do Charles Xavier para fazer uma varredura no cérebro dessa galera do poder aqui no Brasil e revelar de uma vez por todas, de forma absolutamente inquestionável, a verdade sobre essas patifarias que fazem conosco. Gostaria de saber quais seriam os efeitos na sociedade diante da absoluta certeza das coisas.

Duro seria a recuperação do trauma e a escolha de algum caminho realmente novo depois da hecatombe.

Algumas amizades poderiam se refazer também, mas não seriam todas. Para alguns casos, nem com os poderes do melhor amigo do Magneto se consegue a paz.

TOC

Eu vejo marcas em toda parte.

São restos mortais de parágrafos nervosos que partiram para guerra.

Digitais esculpidas na gordura das películas acrílicas que protegem a tela do vidro especial dos retângulos espertos, grudados na mão de cada humano que o meu olho alcança.

Resíduos analógicos, tão efêmeros quanto o capricho dos seus donos e as suas flanelinhas entupidas de produtos químicos que deixam tudo limpinho. 

Rastros curtos deixados por polegares hiperativos, cheios de razão e ódio, obediência e ingenuidade.

Também vejo marcas de histórias de amor e sabedoria.

São poucas.

Mas estão lá, no meio de todos aqueles caracteres rabugentos que na realidade pedem socorro.

VARANDA

Que exuberante quantidade de ignorantes no meio daquela lama que respinga aqui, onde tudo é limpinho.
Haja toalhas, gente e reagentes.

UM CARA DE FÉ

Amigos do peito, desconhecidos curiosos, pessoas que tem coragem, malucos de plantão, covardes de toda espécie e paraquedas em geral. Eu tenho um recado sobre a vida, que vem diretamente das profundezas confusas da minha mente para vocês. Não se trata de nenhuma novidade, quero ser apenas mais um a discorrer sobre o assunto mais batido que conheço. Por puro capricho, indignação, desabafo e exercício da cara de pau. É o seguinte: na realidade, ninguém sabe porra nenhuma sobre coisa alguma relacionada ao que somos, de onde viemos e para onde vamos. A ciência conseguiu entender um ou dois, no máximo três, grãozinhos de areia sobre o assunto, por enquanto, mas a confusão não melhora.

Podem aparecer com soluções espirituais, físicas, metafísicas ou o que for necessário para justificar o ser humano, a vida, o sofrimento, as injustiças. O fato é que ninguém nunca prova nada.

A Terra pode ser uma nano partícula de algum organismo que neste exato momento pode estar com as mesmas dúvidas que nós temos, que também pode ser outra nano partícula… Podemos estar na dimensão ‘X’ que ao mesmo tempo comporta a dimensão ‘Y’ em outra vibração, ou velocidade que vai existindo independente da outra no mesmo espaço tempo onde acumula mundos infinitos. Podemos ser ecos de um pensamento, pensando existir de fato, enquanto a nossa verdadeira existência não se lembra que existimos pois somos os seus sonhos esquecidos. Podemos ser realmente a imagem e semelhança de um Deus criador aprendendo a merecer o caminho do paraíso, ou penando por pecados cometidos em outras existências que não lembramos por gratidão divina, ou ovelhas que foram salvas pelo sofrimento do filho do criador que precisa de um sacrifício, ou a colônia de algum planeta que se alimenta do nosso sofrimento, da nossa dúvida, ou o que a imaginação permitir, inclusive uma, ou várias possibilidades que vão sendo apontadas pela ciência. Um acidente, um acaso que foi evoluindo até o que somos, que vai se adaptando muito lentamente às condições que vão se estabelecendo. Não dá para saber exatamente. É tanta estória que vamos ouvindo, tantas crenças que vão tentando plantar e plantam em nossas cabeças, tantas evidências óbvias que vão sendo derrubadas com o tempo, que vamos nos perdendo. Somos perdidos.

É uma falação dos diabos (opa!), uma disputa infernal (opa!) pela ‘verdade’. Um desafio à razão, à emoção, aos nervos. Tenho dificuldade em confiar, ao mesmo tempo em que o meu maior desejo seria realmente confiar, mas o meu senso crítico não permite, graças a Deus (não resisti). Há injustiças por todos os lados, cometidas o tempo todo. Muitas vezes sem querer, por ignorância, por pura maldade, por motivos de força maior, por arrogância, por azar… É tanta gente passando fome, necessidade, sofrendo por amor, saudade, vontade, por falta de recursos, doenças e toda uma sorte de situações de dor, que fica difícil manter algum tipo de fé. A impressão que tenho é que alguns sofrem menos, outros mais e outros muito mais, e o motivo aparente nunca é justo. O que é justo? Parece que a coisa foi feita para ser assim. Isso me revolta. Pareço ingênuo? Quem não parece? Quem não é?

Ando revoltado a muito tempo. Escuto em todo canto que a revolta não resolve nada, muito pelo contrário, piora tudo. Vivo tentando não me revoltar, mas parece ser pior quando não me revolto, me sinto um covarde, um inútil, um falso que aceita calado o que não concorda. Tento ouvir as vozes que me pedem para puxar o freio, tento transformar essa revolta em algo útil, em um ‘não concordar’ didático, pausado, pensado, político, com jogo de cintura, cheio de dedos para não ofender quem importa (quem importa?). Talvez, continuando assim, aprendendo a ser bonzinho e bem comportado, ou esperto o suficiente para usar os códigos certos nos momentos corretos, os anjos, os santos, os espíritos, os orixás, os deuses, Jesus, Jeová, Alá ou até mesmo o próprio Criador, ou, quem sabe, um Marciano, possam dar uma luz.

Não quero dizer que não percebo os prazeres, as emoções maravilhosas e os presentes que a vida e a natureza nos permitem. Não quero dizer que não há paz, amor, alegria, felicidade. Essas coisas existem. O problema é a equação da paz, do amor, da alegria e da felicidade, com a dor e o tempo que ela pode durar. Sinceramente, isso me deixa muito puto. Eu não sei resolver essa maldita (opa!) conta. A maioria das pessoas que conheço não sabe. Algumas pensam que sabem, mas não sabem, apenas mentem para si e para os outros, entrando numa espécie de hipnose, conduzida por uma necessidade de crença que parece morar no DNA da maioria, e só serve para fundir e confundir, ainda mais, a cuca de indignados como eu.

Não há pra onde correr, as vezes penso que o suicídio seria uma boa colher para cavar esse túnel rumo a liberdade, mas minha coragem limita-se ao pensamento. Já escutei e sou influenciado por muitas estórias e tenho medo de encontrar um diabo(opa!) ainda maior do ‘outro lado’. Confesso que já pensei em algumas formas de cometê-lo. A que mais gostei foi uma onde não parto sozinho, mas em caravana, com todos os seres do planeta, de uma só vez. Um suicídio geral e coletivo com o objetivo de entupir o céu. Uma forma de protesto pela falta de manual de instrução aqui na Terra. Seria engraçada a cena, tão engraçada quanto impossível. Já pensou o trabalho para convencer todo mundo? Fora que poderíamos chegar lá e descobrir que tudo não passa de uma grande pegadinha, ou, um grande e absoluto, nada.

Não sou negativo, sou apenas mais um questionador, perdido, revoltado e curioso querendo escrever sobre um tema batido, que já leu, viu, assistiu e ouviu um monte de coisas em busca de algum entendimento e paz – do psicólogo ao centro de macumba, da brincadeira do copo a ressonância magnética, dos Florais de Bach ao Prozac – e nunca conseguiu nada. Um cara alegre, pero no mucho, que em boa parte do tempo não consegue deixar de sentir-se como um animal puxando uma carroça com carga desconhecida e muito pesada, movendo-se apenas pelo medo e pelo desejo incontrolável de abocanhar a cenoura gigante do esclarecimento. Palavra de alguém que tem fé, mesmo não conseguindo acreditar efetivamente em nada até agora, que vive confuso e só queria entender o universo, só isso.

#ChicoScarpini