HUMANAMENTE

Coleciono defeitos, quase sempre, involuntariamente.

Uma parte do acervo, dou conta sozinho.

O restante, com a ajuda das paredes – com olhos e ouvidos – das casas dos vizinhos, vou catalogando.

Tenho defeito que nem é defeito, dependendo do contexto.

Tenho defeito que enxergo o tempo todo ali, mas nunca aqui.

Tenho defeito que não encontro de nenhum jeito, mas tudo mundo encontra e ninguém me conta, nem as paredes.

Desses, tenho medo.

É estranho isso, poder passar uma existência e não ser apresentado ao seu maior inimigo, mesmo morando na mesma casa.

#ChicoScarpini

TIOZINHO DO TERCEIRO MILÊNIO

As vezes acordo com a paciência de um millennial hiperativo, sem Ritalina, morando numa segunda-feira qualquer do século passado, sendo obrigado a rebobinar infinitas fitas do Titanic para devolver à videolocadora.

Sempre ouvi falar que a paciência vai se transformando num artigo de luxo nas pessoas mais velhas mas, os mais velhos que me fizeram acreditar nessa hipótese, habitavam um mundo bem menor, que dava pra dar conta com os sentidos, pelo menos aqueles que conhecíamos.

Um mundo onde a imaginação ocupava um lugar importante mas, a realidade, esta mesma que pode nos amputar a qualquer momento pelo simples fato de estarmos calçando um Crocs em alguma escada rolante de qualquer shopping da vida, esta sim, era a que contava.

Posso afirmar: eles nunca souberam o que é perder a paciência de verdade. E olha que não estou falando de um mundo pior, pelo menos tecnicamente.

Não sei quando foi que começamos a morar mais dentro das nossas telas do que aqui no quintal, quer dizer, no playground, na varanda gourmet ou no gazebo dos nossos condomínios.

Não sei quando foi que começamos a sentir mais dor com uma palavra mal colocada do que com um traumatismo craniano. Não sei, mas aconteceu e esta acontecendo cada vez mais, e isto, para alguém que morou num planeta onde se jogava bola no meio da rua descalço com as traves do gol feitas com chinelos, que também eram usados pelas nossas mães como ferramentas auxiliares na nossa educação, entre outros objetos que se podia arremessar, é muito estranho.

Outro dia, no caixa do hipermercado perto da minha casa, presenciei uma mãe tomando esporro do filho pequeno por conta de uma marca de chocolate que o menino queria e não existia “naquela bosta”, ele exigia que fossem imediatamente para algum outro lugar “muito mais da hora” que vendesse a marca que ele queria. A mãe pediu desculpas ao filho, prometendo que iriam imediatamente, enquanto colocava a senha do seu cartão na maquininha. Eu tive que me segurar.

Continua (ou pelo menos deveria/deverá continuar)

 

#ChicoScarpini

DEVO ME ATURAR?

Não, ninguém é obrigado a se aturar, deixe-se em paz. 

Solte o animal, deixe-o voltar para aquilo que um dia já foi uma floresta.
Deixe-o descobrir a verdade.

Aprenda a brincar sozinho.

Pode ser que algum dia ele volte com o rabo enfiado no próprio rabo.
Pode ser que ele continue apenas procurando para não enlouquecer, como você.
Pode ser que apenas se engane pensando que encontrou alguma coisa.

De qualquer forma, o preço será alto.
De qualquer forma, haverá o resgate.
De qualquer forma, você terá que pagar por você, com a própria vida.

#ChicoScarpini

A PENEIRA

Scarpini_penera

Caneta Esferográfica+Marcador Permanente Velho+Lápis de Cor e Marca Texto



-Chiquinho – perguntei ao meu irmão – , que posição eu falo que jogo?

-Fala que você joga no centro, na defesa.
-Beleza. E onde eu tenho que ficar dentro do campo?
-Fica atrás, perto do seu goleiro. Fica lá e não deixa ninguém do time adversário passar; o cara chegou perto, vai com tudo e trava a jogada, toma a bola e depois passa para alguém do seu time.
-Valeu Chico.

De repente aparece um cara mais velho, com agasalho do SPFC, perguntando quem nasceu em 71.

Segui o homem, eu e mais um amigo, o Marquinhos, que naquela época também atendia por Quácula, e todos os outros mais velhos do grupo, deixando os mais novos – meu irmão e o resto da turma – na entrada.

Estávamos em estado de graça com a chance de participar do teste que poderia mudar as nossas vidas, um nervosismo geral. Imagina, ter a chance de começar uma carreira profissional tão novo e ainda no São Paulo!? Não importava se éramos Santistas, Palmeirenses, Corinthianos… naquela hora éramos todos “Pó de Arroz” com muito orgulho, candidatos a um futuro de fama, grana e muita glória, inclusive eu, que não sabia nem em que posição jogar.

Entramos no vestiário, onde o homem começou a distribuir as camisas. A coisa era bem objetiva, ele olhava para a nossa cara, fazia umas perguntas, dava a camisa e rapidamente ia montando os times conforme a resposta de cada um. Faríamos um rachão com duração de 10 minutos em cada lado do campo ou o tempo que fosse necessário para eles avaliarem o nosso talento. Eu fui um dos primeiros, tinha um bom porte e respondi com segurança todas as perguntas, basicamente dizer o bairro onde morava e em qual série estudava. Peguei a camisa e fui me trocar, participaria do primeiro jogo no mesmo time do Quácula, que era goleiro dos bons. Colocamos nossas chuteiras e ficamos esperando o chamado para a batalha, a partir daquele momento éramos uma equipe competindo com o time adversário e entre nós, uma tensão e uma emoção total, nosso time tinha que ganhar e o nosso futuro estava em jogo.

Entrei naquele campo enorme com o chão de terra batida e fui para perto do Quácula, enquanto todo mundo ficava batendo aquela bolinha antes da partida começar, fazendo aquela pressão, querendo mostrar o talento a qualquer custo. Chutes a gol, embaixadas, passes, parecia um circo onde os artistas iam mostrando um aperitivo dos seus números antes do show começar, e eu, correndo para lá e para cá, perdido, parecendo o bobo do bobinho, nervoso, sem pegar na bola, mas, de certa forma, aquecendo. O Quácula dava risada. Olhei para arquibancada e vi a turma no meio do resto da molecada, ansiosa, cada um aguardando o seu momento.

O juiz apita o inicio da partida – o nosso time começou – o capitão passa a bola para um cara, que passa para outro cara, que de repente da um passe longo para trás, na minha direção. Filho da puta! A coisa ficou em câmera lenta. Aquela bola alta se aproximando, um meteoro gigantesco, pior do que aquele que dizem ter acabado com os dinossauros aqui na Terra. Não era a hora para eu aparecer no jogo, estava tudo muito no começo ainda, não me sentia confortável com os meus `dons de craque’ naqueles 8 segundos iniciais da peneira. Pensei que conseguiria levar a partida numa boa e só apareceria quando o time adversário atacasse, onde ‘desarmaria’ o primeiro que tentasse passar, eu era bom nisso (só nisso). Não podia ser verdade o que estava acontecendo. Não sabia o que fazer: se matava a bola no peito, se a recebia com o joelho e chutava para a frente ou se parava com o pé, olhava para os lados e depois dava um passe para o meu companheiro da direita. Na realidade, não sabia nem se era capaz de acertar o chute. Na realidade mesmo, acertar o chute seria pura sorte. Imaginei o ridículo de chutar o ar, imaginei a arquibancada indo abaixo de tanto rir da minha cara, imaginei um monte de tragédias. Em uma fração de segundos, dezenas de possibilidades e todas ruins para o meu lado, mas nada comparado ao que aconteceu.

Eu não errei a bola, quer dizer, mais ou menos. Eu acertei o chute na bola, mas da forma mais bizarra, meia boca e brocha que um ser humano poderia ter acertado. Na realidade foi o meu dedinho do pé direito que acertou a bola, de raspão. Uma cena ridícula. Chutei, a bola bateu no meu dedinho, desacelerou e começou uma nova parábola (só que em forma de mola), mantendo o sentido original na direção exata do ângulo do nosso gol. Que tragédia. O Quácula até que tentou, fez uma ponte belíssima, coisa de profissional, mas não teve jeito, fiz o meu primeiro e último gol no São Paulo Futebol Clube.

Posso garantir: fiquei muito famoso naquele dia.

(Texto de 2013. Já havia publicado por aqui. Após dezenas de revisões, optei por republicar. A ilustração é recente)

DEGRADATIVO

Não tenho vontade de nada do que falam que faz bem.
Não sei se pelo gosto, não sei se pelo tom.
Talvez eu me arrependa quando for tarde demais, não sei.
Talvez eu nem chegue a perceber ou até perceba, bem devagar, como agora.
O que é quase o mesmo que não perceber.

Apenas observo da janela, o cinza e o concreto, que vai tomando conta do ar.

AVENIDA

Gente que vai pro céu,
bala que vem perdida,
abismos aparecendo
em plena avenida.

Torres que vão crescendo,
galhos que vão caindo,
acidentes acontecendo
em plena avenida.

Pneus que vão queimando,
protestos que vão surgindo,
palhaços se matando
em plena avenida.

Radares que vão multando,
crianças que vão pedindo,
semáforos piscando
em plena avenida.

Asfalto que vai crescendo,
calçada que vai sumindo,
um corpo apodrecendo
em plena avenida.

PARÁBOLA

Toda a psicodelia que o tédio de um sábado nublado é capaz de produzir numa pessoa. A história da trajetória de um pigarro.

PARÁBOLA
Enquanto os carros
quebram lá fora,
da janela do meu quarto
escarro o pigarro
da poeira que outrora,
morava aqui dentro
e agora,
vôa feliz para o mundo.

Enquanto os prédios
caem lá fora,
da janela do meu carro
escarro o pigarro
da poeira que outrora
morava aqui dentro
e agora,
vôa feliz para o mundo.