BINÓCULO ATÔMICO ESPACIAL

Aponto o meu binóculo atômico espacial para o chão e consigo enxergar, com clareza, todas as bactérias da poeira da lona do tempo que fui deixando escapar, graças ao meu inevitável estrabismo e a minha surpreendente miopia. Nada me é tão familiar. Uma espécie de panorâmica sobre o habitat  natural do canastrão, esse ex-coitado que lamenta aqui, em caixa baixa, acostumado a fingir-se de vivo o tempo inteiro por conta do mais puro, autêntico e cristalino, medo. Com ele, o binóculo, também consigo captar, com precisão cirúrgica, os muitos favores que nunca foram pedidos, todas as ajudas que nunca foram oferecidas, os milhares de sonhos fossilizados e as dezenas de amores derretidos pelo tempo. Ouço também muitas gargalhadas, mas isso não tem nada a ver com o binóculo, são apenas ruídos, já estou acostumado.

RÉGUA

Sou uma inocente vítima preguiçosa das muitas inocentes vítimas preguiçosas do acaso. Questão de bom senso e da total falta de provas que autorizem o uso de alguma outra palavra que contenha em seu significado qualquer tipo de conotação próxima do que se entenda por sagrado. Tenho poucas certezas na vida além da morte, do medo, dos desejos, das dúvidas e das dívidas, talvez como todo mundo. No mais, sigo sonhando sem controle, tentando e realizando o tanto que posso do jeito que consigo – no tempo que tenho – o que pode ser pouco, ou muito pouco, dependendo da régua.

#ChicoScarpini

NIX

nix_scarpini

Bamboo+Illustrator

A cidade acende, movimentos para todos os lados. Cores, formas, sons e odores que disfarçam o choro e as lágrimas que escorrem nas canaletas da avenida. Movimentos que celebram mais um dia que se foi.

Viva a Deusa noite que começa a nos seduzir mostrando a sua perna por trás da cortina desenhada pela fumaça que sai dos canos da cidade enlouquecida. Viva o brinde que começa a acontecer fácil em todo lugar, liberando os sonhos da gaiola da rotina. Viva os exageros autorizados (ou não). Viva o delírio. Viva a lucidez. Viva até quem não brinda. Viva até quem não vive.

Hoje, certamente, teremos mais uma noite perfeita. Há monóxido de carbono para todos, há crédito para alguns. As verdadeiras drogas que viciam, gratuitamente, tudo que respira e sonha na cidade que acende.

Ninguém pode impedir a cidade de mostrar suas luzes à Deusa noite, há muitos sorrisos no ar e as damas prometem, mesmo que seja uma grande mentira elas sempre prometem, e nós acreditamos.

Temos muitas horas pela frente e não estamos completamente sozinhos na tentativa eterna, inútil, fútil e divertida de sabotar a chegada do próximo dia. A nossa consciência ainda não pesa e sabemos que todos, absolutamente todos, terão que rachar a conta no final.

Essa é a lei da cidade que acende, tão certa quanto a gravidade que vai derrubando lentamente todos os personagens desse enorme boteco de concreto e luz que ilumina os sonhos e os pesadelos da vida. Até de quem não vive, até de quem não brinda.

#ChicoScarpini