O PRIMEIRO POSTE A GENTE NUNCA ESQUECE

– Meu! cuidado!!
– Quê??

BRUMMMMMM!!

Lembro daquela sala gigante, cheia de pessoas uniformizadas, dos televisores colados nas paredes, das mesas entupidas de botões e da minha cabeça confusa. Era muita adrenalina para aquele momento. Os ‘flashes’ aconteciam de forma arrebatadora na minha cabeça, eram como raios enviados diretamente do inferno, disparados pelo próprio Satanás. Uma hora me atingiam com a lembrança real da chuva fina que lubrificava o asfalto da marginal, outra hora acertavam em cheio a minha consciência com a lembrança dos litros e litros de cerveja que havíamos consumido durante aquele dia, aquela noite e aquela madrugada, outra hora mostravam, em ‘close’, o poste, que em fração de segundos destruiu a frente da Brasília do meu pai… as cenas surgiam com uma realidade impressionante, um quebra cabeças de 1 milhão de peças, montado naquele momento, mostrando a imagem de uma merda gigante em altíssima definição, que eu acabara de fazer… dava pra sentir até o cheiro, um horror.

– O senhor tem telefone?
– O que?
– Telefone!! Temos que ligar para algum parente, algum amigo seu, algum… sei lá! Alguém que possa te ajudar.
– Não, não tenho telefone em casa e não quero alugar ninguém. O senhor tem um copo de água? Eu preciso saber do meu amigo e do ‘meu’ carro.
– Toma a sua água e vamos voltar pro seu carro então, o guincho já deve estar lá e o seu amigo também. Como é que você fez isso meu filho? Bater no poste? Isso é coisa de quem tava muito mamado ou é bem cabaço, ou os dois. A sua sorte é que não pintou polícia e não aconteceu nada com poste e nem com ninguém, senão você estava fodido, ia gastar uma grana violenta, podia pegar até cana.Você é de maior?
– Eu tô fodido! Meu pai vai me matar. O carro é dele. Estou juntando, quer dizer, estava juntando dinheiro pra comprar o meu, mas… agora, depois dessa merda que eu fiz…
– Esquece isso garoto, agora, o que você tem que fazer é tirar o carro dali, amanhã resolve o resto.
– Obrigado. Eu tenho 19 anos.

Saímos daquela central de segurança e voltamos para o lugar do acidente, meu amigo estava lá conversando com o cara do guincho, exatamente como disse o agente de segurança que me socorreu.

– Esse é o dono do carro.
– Boa noite!
– Boa noite? Só se for pro senhor, pra mim esta uma péssima noite. Dá uma olhada na bosta que eu fiz!?
– Hi, hi, hi!!É meu amigo, essas coisas acontecem. Eu trabalho com isso, o seu acidente até que é leve perto das porradas que vejo e atendo por ai. O seu é coisa de moleque, com certeza você estava fazendo alguma festa, bebeu demais, voltou na chuva, deu aquela viajada e meteu o carro no poste. Hi, hi, hi, hi!! Deu sorte de não pegar ninguém, senão?! Cê tava fo-di-do. Sabe qual o pobrema? A culpa é da prefeitura, onde já se viu colocar poste de concreto numa cidade dessas!? tinha que colocar uns de borracha. Hi, hi, hi, hi!! É a vida.
– O pior é que o senhor esta certo. Quanto me cobra pra levar o carro até a região do Jabaquara?
– Jabaquara a onde?
– Americanópolis. Normalmente eu vou pela Av. Cupecê e entro na pracinha, antes de chegar na divisa de Diadema, bem antes.
– Hummmmm!? 100 pratas.
– O senhor esta louco!! Eu acabei de me foder, vou ter que pagar o concerto do carro, ganho uma miséria, não tenho a menor condição de pagar esse valor. Olha pra esse carro!? É uma Brasília! Não é uma Mercedes.
– Cê que sabe!? Posso ir embora e você fica ai com o seu amigo, pra mim tanto faz.
– Pelo amor de Deus!! Eu não tenho dinheiro, da uma melhorada nesse valor. Por favor!
– Eu não costumo fazer isso não, mas, tá bom. Faz um cheque de 80 conto que eu levo o seu carro. Não adianta chorar mais, eu tô trabalhando, senão eu caio fora. Um de vocês vem na cabine comigo e o outro pode ir no carro. E vamos logo que eu tenho mais gente pra recolher.

Fui na cabine com o cara, e o meu amigo, que machucou o braço com a pancada, foi no que sobrou da Brasília pendurada no guincho. O cara era gente boa, uma pessoa humilde, engraçado e muito acostumado com aquela situação toda. Ele era uma espécie de urubú da estrada, vivia voando em volta daquele lugar esperando alguma carniça aparecer para ele tirar o seu sustento. Eu era umas das carniças daquela madrugada que ele estava ajudando por uma módica quantia, ainda bem que ele estava por lá, é duro mas é verdade, nessas horas a gente fica muito perdido, principalmente quando não paga seguro.

Fizemos o caminho para a minha casa e assistimos outros acidentes durante o percurso, o cara era o rei do humor negro e dos desesperados da madrugada, me fez dar boas risadas da minha desgraça, da desgraça alheia e até das próprias desgraças. Na realidade era engraçado e triste ouvir aquele brucutú falando: ‘Tá vendo aquele monte de ferro amassado? Na volta eu pego, deve estar pior que você, tomara que sobreviva. Vai pagar a janta” ou então: “parece que a noite hoje vai ser boa, sempre quando chove aqui na marginal, eu faço churrasco em casa no dia seguinte, com direito a picanha e tudo o mais. Chove, chuvinha, chove…” Aquilo era pior do que filme de começo de carreira do Zé do Caixão, mas fez o tempo passar rápido.

Quando chegamos na porta da minha casa com aquele guincho barulhento, não precisei nem acordar o meu pai que saiu na rua de cueca para ver o estrago, ele coçava a cabeça olhava para mim, para o meu amigo, coçava de novo a cabeça, olhava para minha mãe que ficou no portão, olhava pro céu, pensava, parecia que estava no meio de um pesadelo, só faltou pedir para alguém dar uma beliscada nele para ter certeza que não era imaginação.

– Vocês não se machucaram?
– Não, não, só estou com o braço dolorido, acertei no painel do carro na hora da batida.
– Eu bati com a cabeça no espelhinho, mas isso não é nada perto do que aconteceu com o carro.
– Ainda bem que vocês não tem nada grave, deixa tudo ai, coloca o carro em cima da calçada, amanhã a gente vai ter uma conversa. Você já acertou com o cara do guincho? Tem dinheiro?
– Sim.
– Então tá bom.
– Essa juventude é foguete, pode deixar que eu consigo colocar o carro na garagem, já tô acostumado, não precisa deixar na calçada não, fica tranquilo que é por conta da casa.

E lá foi o homem do guincho descarregar o ferro velho que virou a Brasília do meu pai, foi rapidinho. Ele colocou o carro na garagem, recebeu e partiu para o seu mundo de chuvas, carros quebrados e churrascos com picanha no dia seguinte. Eu, fiquei no meu novo mundo onde o relógio contava a primeira batida de carro da minha vida e a minha primeira colaboração, involuntária, no churrasco alheio. Pelo menos eu não fui o boi.

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1 comentário

  1. Cesar Borgheresi · fevereiro 20, 2014

    Hahahahaha. Sensacional

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