BOM DIA SÃO PAULO

WALKING DEAD

Mouse+Bamboo+Illustrator

“Quando você aglutina matéria e comprime coisas em espaços menores, elas necessáriamente se aquecem, é uma lei da química.”

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BULLYING

Não há troféus na prateleira
(Não há sequer prateleira),
aqui não é lugar para elas
(Nem para eles).
O vácuo sempre foi o senhor absoluto deste cômodo.
Calma, não precisa ficar com medo.
Se quiser brincar, há um porão cheio de apelidos lá fora, fique a vontade.
Divirta-se.

#chicoscarpini

TÊNIS RAINHA

Subindo a ladeira rumo ao Armandão, rua cheia de gente, o sol na cara e o tênis novinho no pé, que alegria. Eu e meu irmão, cada um com o seu. Rainha, era a marca daquelas maravilhas com sola de borracha. Finalmente o nosso pai conseguiu comprar. Tudo bem que o All Star era melhor, de preferência com o cano alto, importado, vendido somente na Feira da Bondade, mas Rainha já estava além da nossa possibilidade e do nosso dia a dia de Bambas, ki-chutes, Congas, havaianas e afins.

Éramos novos na área, dois estranhos naquele lugar diferente, onde os meninos dançavam Break e as meninas eram fãs de Menudo, coisas da moda, entendia o meu irmão, para mim, coisas piores  que a própria morte, mas os tênis eram novinhos e da Rainha, isso é o que importava naquele momento. O nosso pai arrebentou.

– Ei boy!? Vocês dois, chega mais!?

– O que? Tem alguém falando com a gente?

– São aqueles dois caras que ficaram medindo quando entramos na vila.

– Finge que não tá ouvindo.

– Ei!! Seus boy! Chega mais seus cuzão! Deixa eu ver esses tênis. Não adianta correr, anda!? chega mais! Nossa!! Novinho, novinho. E parece que é o meu número, certinho. O seu serve em mim, o dele cabe direitinho no pé do meu truta. Vamo tirando, AGORA! Tira logo cuzão!!

– Mas a gente ganhou ontem de presente do nosso pai, é a primeira vez…

– Cala a boca e tira logo!! A coisa vai complicar. Tô ligado que vocês moram na Cinco, sei que estudam no Armando e que são novos aqui. Vamos! Vai tirando, você e ele. Vai!! A coisa vai sujar pro lado de vocês se demorarem mais um pouco.

– Isso playboy, vai passando o tênis. Você também. Muito bem, entrega pro mano. Agora segue o rumo que nóis vamo atrás de vocês, vai descalço e com a boca fechada, anda!

Continuamos o nosso caminho, descalços, naquele chão de pedra e areia, no meio da vila, cheia de casas muito feias e sem quintal, pequenos cômodos que davam direto para rua de terra, sem muro, sem calçada, sem nada, algumas com a porta aberta, mostrando (ainda mais), a bagunça daquele lugar esquecido, com os seus radinhos mal sintonizados, cheios de crianças ramelentas, barrigudas, algumas peladas, com o nariz cheio de ranho e mães muito bravas, gritando com os filhos, enquanto eu, meu irmão e os dois infelizes, passávamos por tudo aquilo como se fosse a coisa mais normal do mundo, tão normal quanto dois meninos descalços passando na frente de suas casas com dois caras atrás, cada um com um par de tênis novinho na mão, xingando e mandando pedrada.

Passamos pela vila e subimos uma escada mal acabada, sem corrimão, só no concreto e no ferro, bem íngreme, que dava acesso a uma rua asfaltada mais curvada que a escada, uma montanha, um pico do Jaraguá. Subimos muito rápido, rezando para os dois filhos da puta, que além de nos roubar, insistiam em ‘tacar’ pedras e nos xingar, fossem embora, o que acabou acontecendo, mas cheio de ameaças, assim que terminou a subida. Um alívio, apesar do assalto. Nunca desejei tanto na vida, ficar só descalço, com o meu irmão, no meio da rua, sem pedra e sem alma penada xingando, que aventura. Os nossos legítimos Rainha foram pra casa do caralho, mais os nossos pés ficaram livres e a nossa casca mais grossa. Depois desse dia, o caminho para o Armadão nunca mais foi o mesmo.