PATUSCO

Nanquim+guache+canetinha+Photoshop

Em tempos cada vez mais urbanos, congestionados e acelerados como os de hoje, a felicidade acaba escondida no movimento frenético de todas as tarefas que temos para cumprir, de todas as metas que temos para bater, de todos os protestos que temos para fazer. Perceber e sentir felicidade, acaba sendo um imperativo, que nem sempre é real, mas fica lindo nas fotos espalhadas por todas a redes que estruturam a nossa vida ‘pós-moderna’.
Afinal de contas, o que é real?

Essa é a arte para música ‘SEJA FELIZ AGORA’ do album ‘VCSC’, inspirado no conteúdo deste blog

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TRÊS FAMÍLIAS

Os Santos. Gente muito boa. Todos, de certa forma, felizes. A trilha sonora é a televisão ligada na sala e o som do rádio mal sintonizado. Marilú, a filha caçula esta radiante, acaba de decorar a nova coreografia do do grupo “RBD”. Seu irmão do meio, Kevin, também conseguiu finalizar a letra do seu mais novo RAP, uma rima complicada: canhão, trezoitão, ladrão, irmão, arrastão. Uma epopéia.

A Mãe, Dona Leidi Laura dos Santos está impaciente, não consegue dar conta da receita que aprendeu no programa de TV, provavelmente anotou alguma coisa errada, vai acabar falando com a Terezinha, sua vizinha de parede, para resolver o problema. Ganhou no ‘Bicho’ o dinheirinho para comprar os ingredientes. Não é sempre que tem a oportunidade de fazer uma receita tão chique, deu para comprar tudo, não teve nem que trocar o tal do funghi secchi por bacon.

Seu Adão, ‘O chefe’. Não vê a hora do jogo começar na TV, final do campeonato com o seu timão. A caixa de cerveja, pendurada no bar do Seu Zito, mora na geladeira desde às 8 da matina e estará trincando no final da tarde. Pena que Sócratis, seu filho mais velho, esta de serviço, é vigia em um condomínio de alto padrão. Tudo bem, o timão vencendo, está tudo certo.

Os Sanches. Gente boa. Cada um com a sua graça. Todos, de certa forma, bem. A trilha sonora varia conforme o quarto. Paty (Britney Spears no iPod), esta aliviada, passou de ano, férias. Acabou a preocupação com as provas, os trabalhos em grupo e as lições de casa, agora, apenas os horários da natação, as aulas de Spining e o curso de espanhol (seu professor particular de inglês está em OHIO desde outubro fazendo MBA). Experimenta a roupa que usará no clube, quer muito que Cíntia e Ana conheçam seu novo conjuntinho da AMP, presente de natal antecipado da sua madrinha Sophia que mora em Alphaville. Marcelo, seu ficante do mês, talvez perceba. Paulo com certeza perceberá.

Alexandre. Como sempre, roncando. Quarto fechado, rock no computador, volume no dois, TV ligada, telefone fora do gancho, celular carregando e alma em outro mundo. Antes das três da tarde, esquece. Chegou tarde, quer dizer, cedo. É fã de CPM22, D2 e Dj 1, busca a alquimia dos estilos desses sons em sua nova banda, o TOD4. Tudo está sempre ‘numa boa’, só não pode ser acordado ‘de madrugada’, vira uma fera. Adora comer macarrão com molho bolonheza e Coca-Cola no café da manhã, principalmente no domingo.

Dona Penelope, uma mulher na moda. Botox, muitas bolsas, sapatos, lingeries, cremes, xampus, prestações no cartão de crédito, cheques pré-datados, carro semi novo importado, financiado, aulas de zumba, funk, yoga e pilates na academia. Pensa na desculpa para explicar o help que pedirá ao maridão – estourou no cheque especial – alguma ‘coisa’ com renda, talvez ajude.

Seu Carlo. Placa de gerente do ano na estante, livro do Deepak Chopra na pasta e pulseira do equilíbrio no pulso. Usa uma colônia comprada no free shopping (nome complicado), bermuda da Lacoste e chinelo da Side Walking. Prepara o discurso com as recomendações, orientações e declarações de amor que fará à filha quando levá-la ao clube. Aproveita e já pensa nas perguntas que fará quando for buscá-la. Escuta CBN, assina Você S/A.

Família Arnaut. Gente elegante. Todos viajando, até os cachorros foram para um hotel especializado no interior, uma colega da Dra. Elena que recomendou.

Passaportes, milhagens, condomínio fechado, quadras, piscinas, suítes, salas, pé direito alto, muitas obras de arte, jardim de inverno e alguns empregados. O vigia, da empresa Q-PROTEJ, passa por lá a cada 20 minutos. Tudo em ordem. Trilha sonora: pássaros, brisa e o celular ligado no rádio, esperando notícias do seu timão que joga logo mais à tarde.

Foram para Suíça semana passada, menos o Dr. Bernardo, que só embarcou no vôo de ontem à noite, tinha homenagens e prêmios aos melhores executivos da sua companhia. É uma tradição a entrega das placas ao mérito, em mãos, pelo presidente. Coisas de final de ano.

UM CARA DE FÉ

Amigos do peito, desconhecidos curiosos, pessoas que tem coragem, malucos de plantão, covardes de toda espécie e paraquedas em geral. Eu tenho um recado sobre a vida, que vem diretamente das profundezas confusas da minha mente para vocês. Não se trata de nenhuma novidade, quero ser apenas mais um a discorrer sobre o assunto mais batido que conheço. Por puro capricho, indignação, desabafo e exercício da cara de pau. É o seguinte: na realidade, ninguém sabe porra nenhuma sobre coisa alguma relacionada ao que somos, de onde viemos e para onde vamos. A ciência conseguiu entender um ou dois, no máximo três, grãozinhos de areia sobre o assunto, por enquanto, mas a confusão não melhora.

Podem aparecer com soluções espirituais, físicas, metafísicas ou o que for necessário para justificar o ser humano, a vida, o sofrimento, as injustiças. O fato é que ninguém nunca prova nada.

A Terra pode ser uma nano partícula de algum organismo que neste exato momento pode estar com as mesmas dúvidas que nós temos, que também pode ser outra nano partícula… Podemos estar na dimensão ‘X’ que ao mesmo tempo comporta a dimensão ‘Y’ em outra vibração, ou velocidade que vai existindo independente da outra no mesmo espaço tempo onde acumula mundos infinitos. Podemos ser ecos de um pensamento, pensando existir de fato, enquanto a nossa verdadeira existência não se lembra que existimos pois somos os seus sonhos esquecidos. Podemos ser realmente a imagem e semelhança de um Deus criador aprendendo a merecer o caminho do paraíso, ou penando por pecados cometidos em outras existências que não lembramos por gratidão divina, ou ovelhas que foram salvas pelo sofrimento do filho do criador que precisa de um sacrifício, ou a colônia de algum planeta que se alimenta do nosso sofrimento, da nossa dúvida, ou o que a imaginação permitir, inclusive uma, ou várias possibilidades que vão sendo apontadas pela ciência. Um acidente, um acaso que foi evoluindo até o que somos, que vai se adaptando muito lentamente às condições que vão se estabelecendo. Não dá para saber exatamente. É tanta estória que vamos ouvindo, tantas crenças que vão tentando plantar e plantam em nossas cabeças, tantas evidências óbvias que vão sendo derrubadas com o tempo, que vamos nos perdendo. Somos perdidos.

É uma falação dos diabos (opa!), uma disputa infernal (opa!) pela ‘verdade’. Um desafio à razão, à emoção, aos nervos. Tenho dificuldade em confiar, ao mesmo tempo em que o meu maior desejo seria realmente confiar, mas o meu senso crítico não permite, graças a Deus (não resisti). Há injustiças por todos os lados, cometidas o tempo todo. Muitas vezes sem querer, por ignorância, por pura maldade, por motivos de força maior, por arrogância, por azar… É tanta gente passando fome, necessidade, sofrendo por amor, saudade, vontade, por falta de recursos, doenças e toda uma sorte de situações de dor, que fica difícil manter algum tipo de fé. A impressão que tenho é que alguns sofrem menos, outros mais e outros muito mais, e o motivo aparente nunca é justo. O que é justo? Parece que a coisa foi feita para ser assim. Isso me revolta. Pareço ingênuo? Quem não parece? Quem não é?

Ando revoltado a muito tempo. Escuto em todo canto que a revolta não resolve nada, muito pelo contrário, piora tudo. Vivo tentando não me revoltar, mas parece ser pior quando não me revolto, me sinto um covarde, um inútil, um falso que aceita calado o que não concorda. Tento ouvir as vozes que me pedem para puxar o freio, tento transformar essa revolta em algo útil, em um ‘não concordar’ didático, pausado, pensado, político, com jogo de cintura, cheio de dedos para não ofender quem importa (quem importa?). Talvez, continuando assim, aprendendo a ser bonzinho e bem comportado, ou esperto o suficiente para usar os códigos certos nos momentos corretos, os anjos, os santos, os espíritos, os orixás, os deuses, Jesus, Jeová, Alá ou até mesmo o próprio Criador, ou, quem sabe, um Marciano, possam dar uma luz.

Não quero dizer que não percebo os prazeres, as emoções maravilhosas e os presentes que a vida e a natureza nos permitem. Não quero dizer que não há paz, amor, alegria, felicidade. Essas coisas existem. O problema é a equação da paz, do amor, da alegria e da felicidade, com a dor e o tempo que ela pode durar. Sinceramente, isso me deixa muito puto. Eu não sei resolver essa maldita (opa!) conta. A maioria das pessoas que conheço não sabe. Algumas pensam que sabem, mas não sabem, apenas mentem para si e para os outros, entrando numa espécie de hipnose, conduzida por uma necessidade de crença que parece morar no DNA da maioria, e só serve para fundir e confundir, ainda mais, a cuca de indignados como eu.

Não há pra onde correr, as vezes penso que o suicídio seria uma boa colher para cavar esse túnel rumo a liberdade, mas minha coragem limita-se ao pensamento. Já escutei e sou influenciado por muitas estórias e tenho medo de encontrar um diabo(opa!) ainda maior do ‘outro lado’. Confesso que já pensei em algumas formas de cometê-lo. A que mais gostei foi uma onde não parto sozinho, mas em caravana, com todos os seres do planeta, de uma só vez. Um suicídio geral e coletivo com o objetivo de entupir o céu. Uma forma de protesto pela falta de manual de instrução aqui na Terra. Seria engraçada a cena, tão engraçada quanto impossível. Já pensou o trabalho para convencer todo mundo? Fora que poderíamos chegar lá e descobrir que tudo não passa de uma grande pegadinha, ou, um grande e absoluto, nada.

Não sou negativo, sou apenas mais um questionador, perdido, revoltado e curioso querendo escrever sobre um tema batido, que já leu, viu, assistiu e ouviu um monte de coisas em busca de algum entendimento e paz – do psicólogo ao centro de macumba, da brincadeira do copo a ressonância magnética, dos Florais de Bach ao Prozac – e nunca conseguiu nada. Um cara alegre, pero no mucho, que em boa parte do tempo não consegue deixar de sentir-se como um animal puxando uma carroça com carga desconhecida e muito pesada, movendo-se apenas pelo medo e pelo desejo incontrolável de abocanhar a cenoura gigante do esclarecimento. Palavra de alguém que tem fé, mesmo não conseguindo acreditar efetivamente em nada até agora, que vive confuso e só queria entender o universo, só isso.

#ChicoScarpini

O OCO DO NÃO

É só mais um adeus
nosso enfim despedir
talvez vazio e fatal

O que deixaste encruou
O que levaste é teu
ficou o oco do não

sobrou o seco do fim
Que doeu mais em mim
marcou meu coração

Desprezo que me levou
A pensar mal de ti
com essa pena na mão

Confesso que jamáis pensei
tão cruel assim, nosso fim

Confesso, não acreditei, em você
nem em mim

Composição de Chico Scarpini e Caio Andrade.

FERIDA

Confundo as feridas,
minha autoria a maioria.

Nasci ferindo,
nem sabia como.

Nasci ferido,
só por ter nascido.

Ferindo, ferido,
o tempo todo.

Caçando palavras,
juntando pedaços.

Cutucando quem feria,
cutucado onde não podia.

Cançado palavras,
perdendo a conta.

Na barriga do mundo,
até a última ferida.