CHUPACABRAS GO HOME

 

vcsc_chupacabras_by_scarpini

Bamboo+Illustrator

Marcianos de todas as espécies, fora! Vocês não respiram o mesmo ar que respiramos aqui na Terra e não podem nos representar na galáxia. Não sabem como é difícil  enfrentar, diariamente, um planeta que rosna e morde cada vez mais forte. Cansamos de ser ‘olhados de cima’ por vocês. Peguem as suas naves e sumam daqui.

ORAÇÃO

Tô a toa, to de qualquer jeito
Empurrado pelo vento, dentro um nó no peito
Tento, canto, qualquer tento
Sento pois sinto que demorará
Penso cinza e peço a Deus
Por amor, vem me salvar

Corro, grito, rezo e morro, falo um palavrão
Cavo um buraco novo, que vai parar lá no Japão
Grito seu nome, rasgo minha roupa e solto meus cachorros
E peço tudo de novo

Pois só quero da vida algo que de paz no meu coração
Alguma coisa que transforme a sarjeta em bichinho de estimação
Algo que tire da minha cabeça, que para sempre ela esqueça
O que não tem mais solução
Peço que a noite eu adormeça, um lindo sonho aconteça:
Uma criança chupando o dedão

AZEDO

Acabou a festa, se é que era festa, aquilo, que não soube interpretar senão como festa ou como a vida acontecendo como festa. Não sei. Coisa de maluco. Coisa de quem não tem o que fazer. Na realidade, coisa de quem não sabe o que fazer e sempre fica triste, mais com o fim, do alegre com o começo, ou com a própria existência da festa. Coisa de quem não quer voltar para casa. Coisa de quem, de repente, vai ficando cheio e depois esvazia, como um fim de festa, com convidados e até penetras abandonando a bagunça para quem fica. Coisa de quem sempre fica, como parte da decoração ou como parte dos escombros do que vai deixando de ser a festa, largado no canto, junto com os móveis desarrumados, os copos quebrados, as garrafas vazias, o chão molhado, sujo e escorregadio, cheio de marcas de sapatos, bitucas de cigarros e o cheiro de azedo.

SEJA FELIZ AGORA

Acorda, levanta pro mundo, vai se vestir de coragem
Esquece de tudo, que te deixou na saudade
Levanta essa bola, vê se descola
Reinventa a cidade do jeito que dá

Caminha e carrega contigo, a sua felicidade
Não importa o tamanho, o que importa é vontade
Se mexa e balance, seu corpo ta vivo
Não importa onde está

Seja feliz agora
Aqui, ali, do Oiapoque a Paris, Berlim, Madri, Bali
Em Gothan City ou no Ceará

Seja feliz agora
Em São Paulo ou no Rio, em Tókio ou chuí, Salvador Chernobyl
Em Nova York ou no País de Alah

BABY DON´T GO

Se o seu coração ta doendo, seja o motivo que for
deixa que o tempo te cure meu bem, não pule dai por favor

É só você ter paciência, calmantes, ou um bom doutor
saudade é coisa da vida também, não faça isso ai por favor

Não tente curar suas feridas, causando em você mais dor
Enfrente os momentos da vida, não tome isso ai por favor

Esqueça quem não te merece, se foi era falta de amor
Esqueça quem sempre te esquece e não merece todo esse rancor

Baby don’t go, baby don’t go (bis)

MULEQUE

Não sabe nada, um anjo sem lar
ta na roubada, foi largado na rua, apimentaram sua boca, zoaram o seu chinelo, fizeram ele chorar

Calçada é dura, tempo faz acostumar
Já foi bonito só que socaram sua cara, arrancaram todos os dentes, lhe deram um lindo presente, fizeram um belo colar

Nunca teve azas, seu dono mandou cortar
Sem aza e sem casa, esse anjo endiaba, bagunça a calçada e não pede mais nada, quando a barriga ronca, quando a cabeça ronca, quando a alma ronca
E o coração ronca

Pega o Exu, atrás do Belzebu, não deixa ele escapar
Tomem muito cuidado que esse moleque é danado
vai querer se vingar

Pega o Exu, atrás do Belzebu, não deixa ele escapar
Tomem muito cuidado que esse moleque é danado
Vive pedindo trocado e eu sei que tem um bocado, um bocado do nosso pecado
E remorso pra nos criar

DOM

Qual é o seu desejo, meu desejo?
Me conta logo, pelo amor que tem no que acredita, se é que acredita.
A onde vai dar tudo isso? Toda essa imaterialidade de expectativas que acertam o coração do meu coração.
É muita flecha para uma alma, que já nem sabe se acredita em alma.
Mas sente, meu Deus! Como sente.
Para que serve todo esse dom, se não consigo viver dele? Responde meu Desejo!
Será que o dom foi feito para isso? Ou será meu dom, de uma categoria que não se vive, apenas deseja.
Uma espécie de maldição disfarçada de talento, que rouba das outras coisas que tento fazer, todo o capricho e toda a vontade.
A onde vai dar tudo isso? Você quer que eu enlouqueça? Ou esta é sua forma de me curar?
Me conta logo, pelo amor que tem, e pelo mesmo amor, me ajuda a acreditar.
Qual é o seu desejo, meu Desejo?

QUANDO A MARÉ VIROU (CONTO SOBRE UM POBRE PAULISTA)

Segunda-feira, cinco da matina, muito trânsito em São Paulo. No meu carro, no lugar do som, um baita buraco no painel, a porta detonada e a lembrança da mãe do filho da puta do arrombado do ladrão que fez aquela merda toda. Que raiva!

Maldita hora que não guardei o carro enquanto estava na casa da Miriam, bem que o seu Cleber avisou.
-Coloca esse carro pra dentro, aqui a barra é pesada meu filho.
-Esquenta não seu Cleber, a barra esta pesada em todo lugar.
Eu sempre guardava o carro, naquele dia, não estava a fim.
-Menino?
-Esse carro é protegido, levei a chave até a Aparecida do Norte, o padre benzeu. Deixa os santos trabalharem, eles estão bem descansados, não vai acontecer nada meu sogro. Vamos assistir ao jogo, que já esta começando.

A partir daquele momento, alguma coisa virou. Não sei, parece que o universo começou a me testar: Meu time perdeu, a Miriam ‘encontrou’ um recado de uma amiga do trabalho no meu celular e começou a quebrar um puta pau, a D. Ângela, que sempre me defendeu, ficou do lado dela, o Antonio, cachorro velho e cego, que sempre ficava na boa, começou a latir sem parar da garagem, e o seu Cleber, bem mais chapado que o normal, roncava no sofá feito um porco, feito um porco não, feito um chiqueiro inteiro. Ele sempre ia pra cama quando chapava, desta vez resolveu hibernar na sala. Aquilo era um sinal, eu deveria ter percebido.

A discussão continuou por mais de uma hora e depois de muitos arremessos de sapatos, cinzeiros, porta-retratos e até uma banqueta, a coisa deu uma acalmada. O clima continuou esquisito, mas paramos de ‘falar’ sobre o assunto, fomos dar uma volta na rua, voltamos, começamos a assistir TV. Trégua.

Quando começou a tocar a músiquinha do Fantástico, levantei do sofá, peguei minha carteira e a chave em cima da mesinha da sala e fui com a Míriam para o carro me despedir, quando tive a desagradável surpresa em descobrir o motivo dos latidos do Antonio – a porta do meu carro estava arrombada, o painel detonado e o som, quer dizer, a ‘bunda’ do som , já era. Fiquei só com a carinha do aparelho, que , no impulso da raiva, espatifei no chão e triturei com os pés enquanto gritava feito um louco: “ladrão filho da puta, vai trocar o meu som por pedra de crack na boca! Tomara que tenha uma overdose!”. Foi foda. Um som novinho, paguei a primeira parcela este mês, tinha mp3, entrada USB, controle remoto e os cambau. Ajeitei o que dava e fui pra casa, acabei nem me despedindo direito da Miriam.

…x…

No caminho, como era hábito, parei no posto do Seu Osmar, pedi ao Zé pra completar, mas a porcaria da chave do tanque resolveu não abrir. Hoje, definitivamente não era o dia, quer dizer, não era a noite. Tentei de tudo, chamamos outros frentistas, alguns clientes, a moça da floricultura, o cara do cachorro quente, o flanelinha… nada. A chave não entrava até o fim, consequentemente não abria porra nenhuma de tanque. Tentamos de todas as formas, com jeitinho, sem jeitinho, no grampo, na bota… nada dava certo. Tive que arrumar um chaveiro, no caso um amigo do primo da noiva do Zé, ‘um cabra muito bom’ segundo ele, ‘barato e bom’. Eu não tinha muita opção, o tanque estava na reserva, se não abrisse, não chegaria em casa, estava no meio do caminho.

O cara chegou e foi direto abrir o tanque. Demorou muito pra chegar, umas 2 horas, mas arrumou rapidinho. Disse que algum espírito de porco encheu o buraquinho, onde entra a chave, com palito de dentes. Tive que morrer com R$100,00 pro chaveiro, paguei com a penúltima folha do talão de cheques, nem reclamei, queria ir embora. A gasolina, paguei com a última.

Continuei o meu retorno pra casa, peguei a marginal e fui embora, estava começando a desencanar da porta, do painel, do rádio roubado, do palitinho na tampa do tanque, da grana extra que tive que gastar com o chaveiro, da discussão com a Miriam, estava conseguindo desligar dos assuntos sórdidos, o carro rodava a 100, 110km por hora, tranquilo, de repente, comecei a passar por buracos, do nada, enormes. Eles não estavam ali ontem! Eram uma péssima novidade que tive que engolir, mais uma. Fui reduzindo, reduzindo, o trânsito ficando lento, muito lento, até parar. Parar totalmente. Cachorro fazendo xixi na roda. Algo muito estranho pra aquele horário, mesmo em São Paulo. Eu estava muito cansado e começando a ficar muito nervoso novamente, agora, por causa do rush em pleno começo de madrugada no meio da marginal. Aquele monte de cratera, aquele monte de gente com cara de bosta e nenhuma explicação, nenhuma notícia no rádio, no caso, no rádio do carro do cara do lado, um bigodudo de camiseta regata branca com furinhos nas costas, que ficava buscando, num volume absurdo, notícias referentes aquele trânsito. Ele olhou pro meu carro e deu risada.

…x…

É engraçado a quantidade de gente que surge de repente, com os mais variados artigos nessas horas de trânsito intenso. A coisa vira uma feira ao ar livre. Mesmo em plena madrugada de domingo pra segunda. É neguinho vendendo amendoim, drops, bala, chocolate, carregador de celular, DVD pirata e um monte de outras tranqueiras. De repente, o céu começou a ficar escuro, um trovão, um raio e os primeiros pingos que logo se transformaram em uma chuva daquelas. Como num passe de mágica, o cara que vendia carregador de celular, passou a vender capa de chuva, o cara do amendoim, agora vendia guarda chuva, um outro, luva de borracha, roupa de borracha, pé de pato, devia ter até submarino. Imagina a cena, marginal parada e cheia de buracos, que após a chuva se transformaram em lagos, um mercado de peixe inteirinho gritando na sua orelha, o painel do carro arrombado, a porta torta, o bolso vazio, e agora o celular.

…x…

Era tarde e precisava ligar em casa para avisar o pessoal sobre a maré de azar que tomou a minha vida nas últimas horas. O pessoal é preocupado, minha mãe já tem a idade avançada, moramos eu, ela e uma irmã mais velha, quer dizer, uma irmã bem mais velha e chata. Mas o celular sumiu, do nada, de repente, sem aviso e justamente no meio daquele caos. Hoje, definitivamente, era o dia de pagar pecado. Se caísse um raio naquela marginal, com certeza seria em cima do meu carro, não iria estranhar, na realidade iria agradecer por não ser diretamente na minha cabeça.

Escutei no rádio do carro do meu, agora amigo, Josemar, a notícia que a marginal teve uma de suas pontes danificadas, mais precisamente a do Limão. Não sabiam ainda o motivo, mas não havia muito o que fazer, o negócio foi esperar. Tudo bem, três horas, quarenta e nove minutos, trinta e cinco, trinta e seis, trinta e sete… segundos na marginal, completamente parada. Uma maravilha! Rolou até uma ‘chuvinha’ pra refrescar. Viva a natureza, que beleza. O que mais esperar? uma bala perdida!? Só tenho a agradecer. Incrível! Obrigado meu anjo da guarda.

…x…

O sol estava raiando quando a marginal resolveu dar sinal de vida. Até que enfim a ponte estava arrumada. Neste momento, não queria saber de mais nada, nada do rádio roubado, nada da minha família, nada da fome que sentia, da grana, da chave do tanque, do celular, da Miriam, do chefe. Estava apenas contemplando os primeiros momentos da semana, sem resistir ou criticar as provações que me foram reservadas. Acho que ouvi este conselho de algum locutor no rádio do Josemar. Que bela segunda-feira, que bela manhã, que belo sol iluminando todo aquele cocô boiando suavemente junto aos pneus e aos dejetos do rio Tiête. Que aroma, que buquê, que espuma branquinha, que melodia exótica sendo executada pelas máquinas ao redor, que sensação bucólica. Nada mais incomodava, nada mais importava. Na minha mente, o vázio dos que meditam, no meu caso, dos que aprenderam a meditar a fórceps. Um vazio que foi sendo calmamente interrompido por uma dúvida, uma singela, inocente, quase infantil, dúvida: Cocô é palavrão?

HOJE

Amo hoje como nunca amei na vida.

Ontem posso até ter gritado, esperneado, chorado. Era amor? Não sei, mas tenho certeza que não era hoje.

Antes de ontem minha alma pode ter ficado daltônica, meu coração ressecado e minhas lágrimas em carne viva. Era amor? Não sei, mas tenho certeza absoluta que não era hoje.

Semana passada sobrevivi a explosão de uma supernova, conheci o centro de uma galáxia e cheguei a ficar cego com um quasar. Era amor? Não sei, mas tenho certeza, mais do que absoluta, que semana passada faz muito tempo para um coração que ama hoje, como nunca amou na vida.

Para Sandra Gervazoni

#ChicoScarpini