ORAÇÃO

Tô a toa, tô de qualquer jeito

Empurrado pelo vento, dentro um nó no peito

Tento, canto, qualquer tento

Sento pois sinto que demorará

Penso cinza e peço a Deus

Por amor, vem me salvar

Rezo e morro, falo um palavrão

Cavo um buraco novo, que vai para o Japão

Grito seu nome, rasgo minha roupa e solto os meus cachorros

E peço tudo de novo

Pois só quero da vida algo que de paz no meu coração

Alguma coisa que transforme a sarjeta em bichinho de estimação

Peço que a noite eu adormeça, um lindo sonho aconteça:

Uma criança chupando o dedão

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SILVERTAPE

Mouse+Bamboo+Illustrator

Durante as gravações de VCSC, album inspirado no conteúdo deste blog, era comum o Fabá Jimenez (Produtor) aparecer para o trabalho com a sua ‘vespinha’, carregando um case de guitarra (ou mais de uma), alguma caixa de som ou coisas grandes do gênero, literalmente, nas costas. Ele e o seu chapéu de artista.

Confira o resultado sonoro de tamanho equilíbrio, esforço e comédia:

Ó (CORRUPTO)

Se eu te pego, eu te bato, te capo, te rapo, te faço
te transformo em sapato, te esfolo, te taco no mato
te penduro no laço, te raspo, te racho no taco
te torturo com a pena de baixo do braço

Se eu te pego, te achato, te corto, te rasgo com um caco
te arrebento, te marco, te arco, te ponho no tacho
te enveneno, te espremo, te arranco fiapo a fiapo
te costuro, te esfolo, degolo e do meio te racho

Se eu te pego, quebro em mil pedaços, te amasso, te asso
corto fora seu saco, te queimo, te passo, te escracho

Ó, corrupto, se eu te pego, ó

Ó, corrupto, se eu te pego, ó
Vai dar dó

CANÇÃO DO AR

Um beijo, um queijo, é uma rima tão simples (tá no ar)
É só sentir e pegar (sem pensar)
Usar palavras do ar para rimar e montar a canção do tum do meu coração

Num desejo, te vejo (imagens do ar)
Te sentir sem pegar, te abraçar sem tocar, te olhar sem piscar, te beijar sem molhar
Com as imagens rimar e montar a canção do tum do meu coração

Ai que saudade do meu amor
Esse balanço é pra você
Com as palavras do ar rimo amor com flor
Pra dar de presente pro meu amor

Ai que saudade do meu amor
Esse balanço é pra você
Com as imagens do ar rimo amor com flor
Pra dar de presente pro meu amor

MIGRANTE

Qual o nome da cidade, qual o tamanho dela?
São tantas ruas, rios, pontes, casas, favelas

Qual o nome da cidade, onde ninguém te espera?
É tanta gente correndo em direção a panela

Qual o nome da cidade, sou uma cidade bela?
com sorriso e choro, e a boca aberta banguela

Qual o nome da cidade, sozinho a luz de velas
Sou uma saudade louca, uma saudade eterna

Que cidade eu sou?
quem é que mora nela?

Que cidade eu sou?
sou uma saudade dela

Qual o nome da cidade, qual o tamanho dela?
São tantas ruas, rios, pontes, prédios, sujas vielas

Qual o nome da cidade, espera, eterna espera
Com avalanche no morro e água pela janela

Qual o nome da cidade, quanta fumaça há nela
o escapamento do carro, cigarro e a chaminé

Qual o nome da cidade, o que a cidade é?
O que a cidade virou, o que a cidade quer?

ERRARE

Bem vindo ao mundo,
ser que falha

Por mais falso que você seja,
seja sempre bem vindo

Falhe a vontade,
não tenha pressa e nem vergonha de nada

Falhe no cálculo,
no caráter e na palavra

Falhe na atitude,
no julgamento ou na passada

Falhe por culpa,
ou por causa de nada

Falhe na ajuda,
na cura ou na virada

Falhe na falha,
falhe o que valha

Falhe no jogo,
falhe pela medalha

Só não falhe da vida dos outros,
esses não valem, da vida, o que se fale

JAUAPERI

Ontem passei na minha antiga rua, deu saudade.
Fui atropelado pelo caminhão do passado.
Lembrei dos sons, das cores, dos cheiros, da velocidade e até da temperatura daquele tempo, daquele lugar e daquele tamanho que eu tinha.
Que mundo gigante!
Como eram bonitas as casas, até as mais simples, como eram baixos os muros, como eram largas as calçadas.
Como eram divertidas as nossas tardes, até as mais nubladas, como era grande a nossa turma, como era gigante o nosso sonho.
Hoje é bom, hoje é ruim, hoje é maravilhoso. Mas, só será um caminhão, amanhã.

CARLINHOS – stereoTIPOS

Carlinhos não faz nada. Quer dizer, ele come, bebe, dorme , faz cocô, xixi, assiste TV e joga vídeo game. É assim desde a época do Telejogo, do Odissey, do Atari. Quando surgiu o seu primeiro tufo de cabelos brancos, pensou em mudar de vida, mas decidiu mudar de jogo, ou melhor, de console. Hoje ostenta um Playstation 3, que ganhou no último dia das crianças da sua mãe.

Carlinhos acorda tarde, raramente tira o pijama ou sai do quarto. Gosta de futebol, mas nunca foi a um estádio, já namorou, mas a sua namorada não se dava bem com a sua mãe e resolveu ir embora. Seus pais são funcionários públicos aposentados, dormem em camas e quartos separados a mais de 10 anos e nunca brigaram na sua frente.

Carlinhos adora a sua cadelinha de estimação, que a mãe trata, chamada Suzy. As vezes ela dorme na sua cama. Brincam e passam muito tempo juntos. Carlinhos também guarda todos os carrinhos que ganhou na infância, tem os álbuns de figurinha STAMP COLOR e PAULISTINHA completos e não deixa ninguém mexer no seu FALCOM. É um menino muito educado, respeitador de pai e mãe, adora suas tias, seus tios, seus avós e raramente fala palavrão, um amor de menino.

—x—

*stereoTIPOS = Alguns textos deste blog com perfís fictícios, ‘pero no mucho’. Pessoas que de alguma forma conhecemos. É inspirado em tiras do cartunista ANGELI, na época da revista Chiclete com Banana, não lembro o nome da sessão na revista, mas sei que retratava tipos urbanos, figuras, políticos… alguma coisa assim.

PARÁBOLA

Enquanto os carros
quebram lá fora,
da janela do meu quarto
escarro o pigarro
da poeira que outrora
morava aqui dentro,
e agora, neste exato momento,
vôa feliz para o mundo.

Enquanto os prédios
caem lá fora,
da janela do meu carro
escarro o pigarro
da poeira que outrora
morava aqui dentro,
e agora, neste exato momento,
vôa feliz para o mundo.